| Boneca Cibernética |
Esteve no ar desde o natal de 2007 até 10/08/2007. Continua no ar para guardar o nome e os arquivos.
| Moiahaha |
Meu nome é Letícia, tenho 16 anos e talvez eu salve o mundo.
| Créditos |
image by furrrka
| Arquivos |
| Gire a maçaneta - |
Acordei no meio da noite, sentindo saudade do que já fui um dia, mas não porque hoje eu olhe pra trás e veja alguém legal, mas por ter sido alguém, por ter tido todo um mundinho peculiar que eu achava único e especial, mas que quando descobri igual ao mundo de mais 3 bilhões de pessoas machucou muito mais porque me contaram isso, porque se não tivessem contado eu provavelmente ainda seria a mesma otaku de 11 anos que tinha mais amigos num site idiota de fanfics do que na vida real, sonhando com um príncipe encantado que nunca chegaria e de quem eu provavelmente não gostaria se realmente chegasse. Mesmo olhando pra trás e achando meu eu do passado idiota, ingênua, boba, ridícula até não dar mais, eu sinto falta de ser segura de mim mesma, de me achar mais inteligente e culturamente bem instruída porque hoje olho pro eu do presente, gosto parcialmente do que sou, mas sinto falta de um mundo mais amplo que o que tenho.
| abortando o (n)enem - |
A primeira semana de férias já está acabando e o início da segunda ao invés de me fazer querer descansar ainda mais lembra das responsabilidades que deixei de lado e que eu não pedi pra ter e que, embora esteja sendo obrigada a fazer, não posso abandonar porque sou coerente. Mesmo assim, não consigo largar os passeios, dormir até tarde, o twitter, o blog, tudo isso. Há uma luzinha vermelha piscando irritantemente na minha frente (aka pai) me lembrando que tenho de estudar, que tenho de fazer os tais 900 exercícios que o colégio mandou, que se eu fizer só uns 50 por dia já vou estar bem preparada pro vestibular, que sou irresponsável e tal. Estou alerta que não dá pra permanecer assim pra sempre, que esse é um ano importante, mas estou muito, muito cansada. Não quero estudar, mas não quero ficar sem estudar e ter de frequentar o colégio por mais um ano. O 2º ano foi praticamente um terceiro ano e sinto como se tivesse repetido o ano, cruz credo pra fazer 3º ano uma terceira vez. Como se já não bastasse o meu desânimo para a escola, ainda tenho o azar de o modelo de vestibular mudar logo no meu ano! Caramba, e eu vim ignorando a matemática esse tempo todo, deixando pra lá e só estudando quando eu queria, conseguindo 100 quando eu queria, mas agora 45 questões de matemática podem me dar vaga onde eu quiser. E ok, eu sei que vou competir com pessoas que não tem acesso a 25% do ensino que eu tive minha vida toda, mas 45 questões de matemática me assustam muito. E isso logo no dia do meu aniversário (3 de outubro). Confesso que estou insegura. Se fizesse o modelo anterior de vestibular passava numa boa, podendo vagabundear o quanto quisesse, mas esse modelo novo não faz sentido nenhum. 90 questões em 4h30 de prova, absurdo! No colégio fizeram uma simulação e na metade da prova eu já estava morrendo de cansaço, não conseguia ler mais nada, muito menos calcular a área de um quadrado inscrito num círculo e outro circunscrito. Só sei que quero o modelo decoreba novamente. Que o Ministério da Educação inteiro se foda. Até eu entendo mais de educação do que eles para perceber que essa novidade não vai melhorar a vida de nenhum estudante, só dos reitores das faculdades que vão ganhar verba extra do governo se aderirem ao novo Enem.
| Caridade de C6H12O6 - |
Ontem acordei querendo ficar na cama pelo resto da vida, enfiada debaixo de dois edredons com o cabelo todo pra cima, sem maquiagem nenhuma, sentindo saudade de tudo e não dando a mínima para o dia que já começava chovendo, o que quase sempre quer dizer "hoje serei uma merda, fique dentro de casa o dia inteiro e coma chocolate". Mas, era aniversário da tia Mailde então me empurrei para fora da cama, tomei banho, coloquei uma roupa bonitinha e camuflei tudo sob um casaco grandão e quentinho e entrei no carro com meu pai. Ele então parou no posto de gasolina e enquanto eu esperava o tanque de gás encher, sem ouvir música porque tem um aviso nos postos dizendo que rádio e celulares não devem ser usadados enquanto se abastece, vi uma moça no sinal vendendo minha bala favorita: chupetinha (a bala vermelha na esquerda). Peguei 4 reais na carteira e desci do carro, e sentindo um frio do caramba caminhei até a moça da bala esperando que o sinal não fechasse novamente e ela fosse vender no meio dos carros e eu tivesse que correr atrás dela, mas ela ficou paradinha e eu perguntei quanto custava. "3 por R$1,00". Comprei 6 e ela me deu uma extra junto com um sorriso bonito e uns dentes tortos. Achei tão tão fofo o gesto dela, de me dar uma bala a mais. Podia comprar a bala sem me esforçar nem um pouco, mas para ela talvez tenha sido um esforço dar a mim uma bala que ela poderia vender num dos pacotes de 3 por 1 real. A caridade dela, de querer alegrar meu dia com açúcar foi a coisa mais linda que presenciei num domingo chuvoso e provavelmente pelo resto dessa primeira semana de férias. Eu ainda estava não me sentindo bonita, com o cabelo todo estranho e precisando ser lavado, mas a chupetinha extra me fez sorrir pra caramba =)
| Obamaland - |
Então o Obama é de novo um principezinho encantado e pode voltar a salvar o mundo e todo francês é safado. Satisfeistos?
| Clubes - |
Minha psicóloga me indicou um livro, "O clube do filme" (David Gilmour), sobre o qual ela ficou sabendo pela coluna da Martha Medeiros. É, basicamente, sobre um filho problemático que não vê mais perspectiva em ir a escola, cujo pai propõe então que ele deixe de ir a escola, sob a condição de os dois assistirem juntos a três filmes, escolhidos pelo pai, por semana. O garoto não teria de trabalhar, estudar e poderia viver com o pai e ainda receber uma mesada, desde que assistisse aos filmes. Comecem a pensar o que quiserem sobre a decisão do pai e sobre o que pode ter acontecido (aliás, é isso que me manteve o tempo todo grudada no livro, saber o que aconteceria no final e já que é uma história real, se o filho hoje estava se dando bem, já que as expectativas eram que ele se desse muito mal. Tudo o que digo é que o filho é o de blusa vermelha por baixo do paletó neste vídeo), porque não me importa no momento discutir isso.
Ao longo do livro vários filmes são citados e a maior parte eu nunca tinha ouvido falar, outros conhecia de nome e outros vira um trecho mas nunca por completo por qualquer razão. Entretanto, o único filme que eu assisti por completo e que estava no livro era Amores expressos. É um filme super fofo e entrou com certeza para a minha lista de favoritos. O único vídeo que achei foi esse e acho que dá para vocês terem uma ideia que é sobre uma mulher que se apaixona por um cara que encontra todos os dias na lanchonete onde trabalha, mas para quem é completamente invisível. O que o vídeo não mostra é que ele está tão cego a ponto de não vê-la porque está com o coração partido, que ainda está preso a alguém que não lhe deu a mínima atenção, tão preso a ponto de não perceber alguém desesperado para lhe dar o que a outra pessoa não deu. E, principalmente, o vídeo não mostra o processo que há quando ela deixa de ser invisível e começa a modificar a vida do cara, indo a casa dele secretamente, limpando e arrumando, pintando as paredes da casa do cara e no momento em que ele começa a perceber as mudanças (sem saber que foram feitas por outra pessoa e achando que as coisas sempre foram daquele jeito e ele é que nunca as percebeu) começa a deixar a ex para trás e até convida a garçonete para um encontro. Mas, para mim, o ponto alto do filme foi ele ter dado a ela um cd que ela deixou na casa dele para que ele gostasse e que ele achou ser da ex, e ele dá a ela dizendo "você não deveria escutar essas músicas melancólicas, não combina com você. Acho que esse cd vai combinar mais", sendo que muitas vezes quando ele ia a lanchonete ela estava dançando essa música, toda feliz e pulante, e ele nem percebeu que era a mesma música! Mas devolveu o cd a ela achando aquilo a cara dela. Não é demais?
E ver o nome desse filme escrito naquelas páginas, ainda mais pela importância que é dada a ele em determinados momentos, me fez sentir ainda mais presa a história, querendo chegar cada vez mais ao final e sendo muito difícil fazer uma pausa até para fazer xixi; me fez sentir como se experimentasse de fato o que estava acontecendo. Decepções amorosas como a que o filho sofreu todos passamos, mas saber que nesse momento ele assistiu ao mesmo filme que eu assisti quando estava deprê me deixou muito, muito feliz.
Acabei de ler há 1 hora e entreguei o livro ao meu pai, porque ele disse que também queria ler e ele me perguntou o que achei e quando eu só disse que achei bom ele insistiu, provavelmente esperando que eu dissesse algo que desse início a uma discussão filosófica sobre a vida, então eu fui grossa e praticamente o expulsei do quarto sob a justificativa de estar estudando Física (não é mentira, eu realmente estava). Fiquei pensando por que eu e meu pai não podíamos ter a mesma relação que a descrita no livro, mas ao invés de um clube de filmes faríamos um clube de leitura, já que meu pai não é muito fã de filmes e uma coisa que compartilhamos é o gosto pela leitura. Minha primeira reação foi me culpar, dizendo a mim mesma que era grossa sem necessidade, egoísta ao extremo, que fechava qualquer possibilidade de uma relação mais afetuosa com ele e, o clichê mais óbvio de todos, que ainda estava vivendo em função da morte da minha mãe. Segunda reação: culpá-lo por sempre fazer discursos, sobre qualquer coisa, por ter criticado tanto tudo o que eu escrevia sem nunca dar um elogio, por quando ainda assistíamos filmes juntos e ele dava pause só para fazer um discurso de mais ou menos meia hora (às vezes os discursos chegavam a ser mais longos que o próprio filme) e só então deixar o filme rodar. Depois percebi que a culpa não é de ninguém, por mais que os dois tenham colaborado para isso. Eu por ter me agarrado tanto a minha mãe e não ter me esforçado em conhecê-lo quando ainda éramos uma família de três e ele por ter sempre tido que trabalhar e estudar tanto, o que não foi culpa dele, mas nos conduziu a isso.
E depois de pensar tudo isso confesso que não sinto muita vontade de ir lá na sala agora, dar um beijo nele e perguntar o que está assistindo na tv, que sei que sou eu quem está mantendo sempre a distância entre nós e agora uma coisa muito bizarra me ocorreu: terça-feira passada fui a livraria e comprei quatro livros e 3 deles são a respeito de família: O clube do filme (David Gilmour), À espera do sol (Michael Greenberg) e Antes de nascer do mundo (Mia Couto). Isso provavelmente quer dizer que meu subconsciente espera uma relação mais afetuosa com meu pai ou que pelo menos reconhece a falta de algo mais profundo entre nós como um problema.
Era tão mais fácil fazer isso com a minha mãe, sabe? Nós ficamos até tarde assistindo filmes, às vezes acabamos um às 2h e emendavamos outro, ou então líamos os mesmos livros e conversávamos sobre ele, mas fazer isso com meu pai é algo a que não estou acostumada, que envolve muito sacrifício. Agora estou focada em outras coisas e a vida já me ensinou que devemos dar valos aos pais enquanto eles ainda estão aqui, principalmente nos momentos em que mais estamos com raiva deles, porque no minuto seguinte eles vão embora do nada, sem nenhum aviso prévio, mas...